O quê: 

Em um esforço para tornar a criptografia mais acessível para o público em geral no Brasil, um grupo de ativistas de São Paulo organizou um evento gratuito chamado "CrytpoRave": 24 horas de festa, atividades, palestras, debates e oficinas sobre temas como segurança, criptografia, hacking, liberdade de expressão e privacidade.

Quem: 

Pessoas de toda a cidade de São Paulo se voluntariaram e tornaram o evento possível com a ajuda de diversas organizações, entre elas: Actantes, Escola de Ativismo, O Teatro Mágico, Saravá, MS², Thoughtworks, Indymedia Brasil, RNP.br, Filmais, and (ISC)²

Onde: 

São Paulo, Brasil

Atualização de Maio de 2015: A CryptoRave 2015 aconteceu nos dias 24 e 25 de abril, e contou com mais de 35 atividades, superando o ano anterior em qualidade e quantidade. Mais de duas mil pessoas se reuniam no Centro Cultural São Paulo para conferências, hackings, install fests e mesas abertas para discutir o Marco Civil, a neutralidade da rede, e outros tópicos relacionados a privacidade e vigilância, demonstrando a força de ativistas e de grupos de direitos digitais do Brasil. Na noite do dia 24 de abril, com mais de 600 pessoas presentes, a diretora de dereitos internacionais da EFF, Katitza Rodriguez, e o jornalista investigativo da Netzpolitik, Andre Meister, deram início ao evento com uma conferência intitulada "Vigilância em massa e controle social".  Na mesma noite, Eva Galperin, analista de políticas globais da EFF, proferiu a palestra "Modelo de Ameaças: o que você precisa saber".  Também estiveram presentes na CryptoRave, orador principal e o co-fundador do The Pirate Bay, Peter Sunde, e Micah Anderson, do Projeto LEAP.

Durante o evento, a EFF conversou com diversas pessoas e ativistas do Brasil sobre a importância da criptografia e suas implicações no contexto do debate público, e também sobre questões e preocupações relacionadas com a privacidade e a liberdade online. Veja aqui o que elas disseram.

Contexto de Vigilância

Com as revelações de Snowden e a crescente demanda por segurança digital na América Latina, o Brasil sediou, em 2013, uma CryptoParty—um evento global e descentralizado que visa divulgar ferramentas básicas de criptografia e seus conceitos. No início de 2014, um grupo de ativistas de São Paulo, inspirado pelo sucesso da CryptoParty, decidiu organizar um segundo evento local, onde pudesse misturar música e criptografia. Foi assim que surgiu a CryptoRave, um evento de 24h de duração, cheio de atividades, oficinas e com uma festa de verdade! As organizadoras e organizadores queriam reunir pessoas com vivências e interesses diversos, para que juntas pudessem debater e participar de oficinas sobre tópicos de segurança digital que ainda não haviam sido abordados no Brasil. 

O Evento

Para planejar essa grande festa, equipes com pessoas de diversas origens (incluindo pessoas de TI, ativistas e acadêmicos e acadêmicas) foram formadas, conquistando o apoio de várias organizações, coletivos e grupos da área. Mais de cinco organizações e 20 pessoas estiveram envolvidas na produção do evento, ajudando com a coordenação das oficinas, com as despesas, a música, o design e a hospedagem do site, a fotografia e a cobertura da mídia.

A CryptoRave aconteceu no dia 11 de abril de 2014, no Centro Cultural São Paulo, e as pessoas envolvidas na organização estimam que mais de mil pessoas compareceram. O evento de 24 horas começou com uma conferência sobre a militarização do ciberespaço, com Jérémie Zimmermann e o ativista pelo software livre Sérgio Amadeu. Após a conferência de abertura, houve três rounds de oficinas e palestras, que foram realizadas até 01h da manhã. Em seguida, começou a festa, que durou a noite toda. Cinco DJs tocaram no evento, levando seus estilos musicais únicos para a mesa, incluindo "Chiptunes" (sintetizadores e batidas electrônicas tiradas a partir de itens como Game Boys) e DJ Thomas, da Voodoohop, festa alternativa/underground de São Paulo. A programação foi planejada de forma intencional: começar o evento com uma conferência de boas-vindas e saltar direto para uma festa foi fundamental, pois permitiu que pessoas de diferentes círculos sociais interagissem e conversassem sobre seus projetos e trabalhos. Neste espaço foi possível ver reunidos ativistas, advogados e advogadas, jornalistas e techs.

Na manhã seguinte, as pessoas participaram da feitura de um café da manhã coletivo, para encarar os eventos do dia devidamente alimentadas. As atividades da CryptRave foram divididas em discussões locais, discussões mundiais, palestras técnicas avançadas e oficinas (essencialmente práticas, com sofisticadas instruções de "como fazer"). As conversas geralmente obedeciam o modelo de conferência, e duravam, em média, uma ou duas horas, enquanto as oficinas eram mais interativas, e ensinavam como instalar e usar aplicativos de criptografia. Os organizadores e organizadoras asseguraram que o evento tivesse uma boa mistura de tópicos — cobrindo desde noções básicas como "O que é criptografia?",  até discussões mais avançadas como "Princípios para a Governança da Internet" —, na tentativa de acomodar igualmente principiantes e participantes mais experientes. Importantes criptógrafos brasileiros foram convidados para o evento, como Pedro Rezende, da Universidade de Brasília, Paulo Barreto, da Universidade de São Paulo, e Diego Aranha, da Universidade de Campinas (UNICAMP), que falaram, entre outras coisas, sobre novas cifras, criptografia geral e criptopolíticas. Durante as 24 horas, havia um espaço reservado onde as pessoas podiam fazer a instalação de softwares livre e de código aberto, como distribuições Linux e ferramentas de criptografia. As pessoas que estavam presentes também puderam jogar uma versão tech de barra-bandeira (ou rouba-bandeira), em que deveriam buscar falhas em diversos servidores e sistemas. Além disso, o site da CryptoRave disponibilizou manuais de segurança digital, como o "Manual de Segurança do Saravá", "A Criptografia Funciona" e uma série de tutoriais da Actantes. A CryptoRave proporcionou atividades para públicos bastante diferentes, do micro ao macro, do iniciante ao experiente.

Vários fatores contribuíram para o sucesso do evento. Em primeiro lugar, a demanda por mais recursos de segurança digital era pálpavel no Brasil, e por isso as pessoas que organizaram fizeram do evento o mais abrangente possível. Elas também escolheram um local público (o Centro Cultural São Paulo), estrategicamente localizado perto de uma estação de metrô, o que permitiu que pessoas de todas as partes da cidade pudessem participar. Além disso, como a CryptoRave era uma evento de 24h, o local proporcionou conforto suficiente para que as pessoas pudessem dormir, se necessário.

A divulgação do evento alcançou organizações de direitos digitais e indivíduos, e contou com um site elegante, mailings atrativas e posts em redes sociais. Um release foi distribuído para os meios de comunicação mais tradicionais, mas, segundo as pessoas da organização, esses veículos não deram muita atenção ao evento. Foi, então, através de blogs, sites e redes sociais, além de material impresso e distribuído em universidades e locais públicos, que a CryptoRave foi divulgada e se espalhou pelo mundo.

Apesar do enorme sucesso do evento, o grupo encontrou muitos desafios durante a produção. Todas as pessoas que participaram da organização eram voluntárias, e estavam trabalhando com um orçamento muito pequeno. Não houve tempo suficiente para fazer uma campanha de crowdfunding, então, as pessoas envolvidas na produção, tiveram que se aproximar de parceiros na área e pedir um patrocínio para cobrir as despesas do evento. Levou algum tempo e foi preciso bastante esforço, mas além do patrocínio, conseguiram fazer com que alguns grupos patrocinadores se envolvessem intensamente com o evento e se tornassem fortes apoiadores.

Ao fim, a CryptoRave foi um sucesso estrondoso, aproximando a criptografia de pessoas da América Latina que já buscavam por esse tipo de aprendizado em segurança digital.

*A próxima CryptoRave está agendada para 24-25 abril de 2015 e deverá contar com crowdfunding.

Lições Aprendidas

  • Dar uma festa no início da CryptoRave foi um enorme sucesso. Começar com um evento social possibilita que pessoas de diferentes estilos de vida e que se importam com segurança digital, interajam com quem normalmente não interagiriam.
  • Criar um Código de Conduta e enviá-lo para todas as pessoas antes do evento. Isto é particularmente eficaz quando você quer construir um evento inclusivo, já que eventos de tecnologia são, muitas vezes, intimidadores para quem está começando e quer aprender.
  • Se alguém criticar seu evento porque não há na programação palestras ou workshops sobre um tema "x", convide a pessoa para organizar da próxima vez!

Fontes