O quê: 

A ativista Anne Roth contou sua história sobre como é viver com um companheiro enquadrado na lei de vigilância alemã anti-terrorismo. Anne decidiu escrever um blog sobre sua experiência de espionagem para proteger a privacidade de sua família.

Quem: 
Anne Roth viveu numa área ocupada em Berlim Oriental no início dos anos 1990, foi co-fundadora da Indymedia na Alemanha em 2001 e recentemente fundou um banco de dados para trabalhadoras altamente especializadas e palestrantes do sexo feminino em conferências. Nos últimos dois anos, tem trabalhado no projeto Tactical Tech “Eu e Minha Sombra” e trabalha como pesquisadora para o investigação parlamentar alemã sobre a NSA e outros serviços secretos.
Onde: 

Berlim, Alemanha

A Prática de Vigilância: 

Logo de manhã cedo no dia 31 de julho de 2007, a polícia federal alemã chegou à residência da jornalista e ciberativista Anne Roth e de seu companheiro, Andrej Holm. Holm é sociólogo urbano e trabalha com as questões da gentrificação e do desenvolvimento urbano. Assim que os policiais armados entraram em sua casa, eles agressivamente prenderam Andrej e realizaram buscas na residência por 15 longas horas. Confusa, como era de se esperar, Anne ligou para um advogado e mais tarde foi informada de que seu companheiro era suspeito de terrorismo.

Andrej passou três semanas em prisão preventiva. Anne logo descobriu que o processo de espionagem sobre Andrej havia começado há um ano, ou seja: eles já estavam sob vigilância desde meados de 2006. A polícia federal investigava um grupo acusado de terrorismo que estava cometendo ataques incendiários contra várias instituições, como as forças armadas. O grupo publicara longas declarações, alegando ser responsável pelos ataques incendiários. Ao fazer uma comparação linguística, a polícia passou a acreditar que Andrej podia ser o autor dessas longas declarações, pois usava palavras como “gentrificação”, “marxista-leninista” e “precarização” em publicações de sua autoria na área de sociologia. Suas palavras fizeram dele um suspeito de terrorismo, o que levou a polícia a acusá-lo de ser parte de uma organização terrorista.

A polícia pode ter usado diversas táticas de vigilância à sua disposição na investigação sobre Andrej, como suspeito de terrorismo na Alemanha. Tais táticas podem incluir observações secretas dos movimentos do suspeito, grampos telefônicos e monitoramento da internet. Embora Anne e Andrej não possam confirmar que isso tenha acontecido com eles, a polícia contatou os bancos e os proprietários de imóveis de outros suspeitos no caso.

Andrej foi solto apenas três semanas depois de sua prisão, mas a investigação e a vigilância continuaram durante três anos, enquanto a polícia procurava alguma coisa — qualquer coisa — que o incriminasse. O casal ainda não sabe ao certo por quanto tempo seus telefones foram monitorados — na verdade Anne acha que até hoje ainda podem ser alvos de vigilância.

Na época em que isso tudo aconteceu (2007), a Alemanha passava pelo processo de aprovação de uma legislação anti-terrorismo, buscando expandir as leis que permitiam à polícia usar câmeras dentro de apartamentos para monitorar pessoas. Durante esse período, a Diretiva Europeia de Retenção de Dados estava apenas começando a ser implementada. E enquanto o efeito potencial da vigilância de alta tecnologia era acaloradamente discutido na mídia, Andrej e Anne passavam por ele.

A Campanha: 

Anne se encontrava na situação singular de não ser ela mesma suspeita, mas estar submetida a vigilância. A situação foi traumática para a família. Sendo ela própria uma ativista, seu impulso de denunciar e reagir à situação foi natural. No entanto, tendo a plena noção das consequências e riscos que corria ao tornar tudo aquilo público, e especialmente levando em conta a responsabilidade para com seus dois filhos, ela demorou cerca de dois meses até ter forças — e coragem — para agir.

Apenas dois meses antes, o casal tinha participado ativamente da organização de ativismo de mídia que documentou os protestos no encontro de cúpula do G8. Eles já contavam com uma vasta rede de pessoas que podiam chamar a atenção da mídia. Apesar de Anne ser ativista, ela temia que, caso começasse a atacar a táticas de vigilância policial, o púbico em geral achasse que ela estava louca ou paranoica. E sabia que, uma vez começado o processo, não teria mais volta. No entanto, seu grande círculo de apoiadores a incentivou a colocar sua experiência num blog, dizendo que este ajudaria outras vítimas de vigilância que podiam não ter os mesmos meios ou acesso à mídia que ela.

A Estratégia: 

Em 2007, quando os blogs ainda não eram muito comuns, ela escreveu uma história (que era mais como uma atualização de sua própria situação para aqueles que se interessavam) e a compartilhou com algumas pessoas que pensavam de forma parecida com ela. Anne continuou escrevendo por umas duas semanas, quando foi publicado um post sobre a situação dela num blog muito conhecido, chamado “Fefes Blog”. Depois disso, as coisas simplesmente explodiram. Ela continuou escrevendo enquanto sua família era submetida a vigilância e observava tudo que ia acontecendo por conta disso: sua televisão funcionar de um jeito estranho, as ligações feitas para o telefone de Andrej que iam parar no telefone dela, a sensação de ter de se auto-censurar a cada conversa telefônica por medo de dizer alguma coisa errada. O retorno e a atenção que seus posts angariaram foram estrondosamente positivos. Anne registrou todos os detalhes, o que a ajudou com os aspectos legais, técnicos e pessoais do caso. O apoio de completos desconhecidos ajudou a justificar o que antes lhe parecia uma paranoia. Ela começou a achar mais fácil falar sobre sua situação e recebeu retorno de pessoas que lhe garantiam que ela não era louca e lhe diziam que tudo bem ela sentir medo. O blog de Anne e seu grande número de apoiadores auxiliaram a causa, organizando a atenção da mídia profissional e o envio de cartas às partes interessadas.

Em julho de 2010, as acusações foram finalmente retiradas. Nenhum outro suspeito de terrorismo havia saído da prisão preventiva antes do início do processo, mas Anne acredita que a atenção da opinião pública para com o caso fez toda a diferença. Anne e Andrej deixaram claro para as pessoas que eram seres humanos normais que não mereciam isso, e esse holofote colocou as práticas de vigilância alemãs sob escrutínio público.

Lições Aprendidas: 
  • Uma rede de apoio é crucial.
  • Venha a público e escreva um blog sobre sua experiência de vigilância a fim de angariar apoio.
Recursos: